A estrada do meu avô
Nuno Amaral,
Jornalista da TSF

Aprendi o cheiro das tílias na mão do meu avô. Havia uma calçada, descíamos. Falava-me do rossio, do ritmo das estações. Era frio no inverno, havia gelo. Anunciava as andorinhas seguintes. Chegávamos à praça, era o centro do mundo, Viseu. Cresci com estes passos serranos. Na beira, que é alta. Falava do longe, de Lisboa, do Porto de Aveiro. Da capital. Falava das virtudes dos homens, das fraquezas que os fazem fugir. Ia pela mão. Vi os Restauradores, os Aliados. A praça do Peixe, em Aveiro. Nos olhos, pela mão do pai da minha mãe. O avô Raul falava de Espanha, das praças Mayores, das tapas. Era um mundo todo, ali, a descer às tílias pelo toque da mão. O fascínio do feminino, a força da delicadeza. Era o tudo da criança no todo da mão do avô, no Rossio, na Beira Alta. Em Viseu, cidade do longe de quase tudo. Era um outro mundo, longínquo.

Anos depois, o avô morreu. E vieram lembranças. E o IP5. Era a estrada da morte, coisa aziaga. Surgiram estudos. Estatísticas, números sintetizadamente frios para fazer tabelas de história. Duplicou-se a estrada. Dividiu-se ao meio o tempo da serra ao mar. Ficou A 25, dupla faixa, quatro vias. Era tudo mais perto, menos curvado no efeito. A estatística caiu. E a colina ficou mais perto do mar. A Costa Nova à beira da Guarda, a serra tinha areia. O mundo europeu circulava numa estrada. Era  o mundo novo. E gratuito, a A 25.O padeiro de Trancoso vendia o pão em Albergaria. Era toda uma via contra a geografia. Passaporte fim-da-interioridade, epílogo das histórias do meu avô. Era a nova praça, de asfalto e de democrática acessibilidade.

E vinha o frio no Inverno. O pólen da primavera. E havia menos interior. E o litoral era de todos a praia. Agora dizem-me que o caminho vai ser pago. E que as histórias longínquas do meu avô vão voltar. Que em Viseu ouvirei falar de Aveiro. Ou que o relato segue pela nacional 16, antiga estrada de antigos relatos. Dizem que o cheiro das tílias pela mão do ancião volta com internet e manifestos de desagrado. Que o litoral ainda agora acessível ficará longe, à distância de uns euros, para emagrecer o défice. E o cajado já não basta para galgar os montes. Porque se afasta cada vez mais o mar das urzes serranas. E o interior será cada vez mais de dentro. O mar ao longe. E o país uno cada vez mais distante. Ao contrário das longínquas histórias do avô, distâncias largas, cada vez mais perto. Homem que não falava de défice, contava um mundo plano. E livre, sem preço para chegar, mais perto do mar. Mais rápido à serra. E faz-se outra história, com portagens electrónicas e chipes na distância dos homens.

Nuno Amaral

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